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terça-feira, 4 de maio de 2010

MERCE CUNNINGHAM: VARIATIONS V E A INTERATIVIDADE

Cristiane Wosniak
Mestra em Comunicação e Linguagens (linha: Cibermídia e Meios Digitais) pela UTP. Bailarina e coreógrafa profissional. Pesquisadora e professora de História da Dança. Publicou o livro Dança, tecnologia e comunicação (2007).

A partir de experiências colaborativas em processos que privilegiavam a autonomia das artes, Merce Cunningham, em 1965, numa parceria com John Cage, David Tudor, Nam June Paik e Stan VanDerBeek, elaborou o que hoje pode ser considerada uma obra de dança-tecnologias interativas.
Variation V foi um espetáculo extremamente vanguardista para a época. Utilizando uma estrutura musical experimental de Cage, alguns bailarinos e muitos sons interagiam literalmente, por meio de sensores dispostos no cenário. Nesta interação performática, o som era regido e afetado pelos movimentos dos bailarinos. Doze artefatos (antenas cujas bases possuíam células fotoelétricas) eram distribuídos pelo local e de acordo com a movimentação dos corpos emitiam sonorizações diferenciadas. Vários equipamentos (osciladores de freqüência, gravadores, rádios, microfones) eram operados, ao vivo, por músicos, que determinavam a duração, velocidade, repetição e variação de efeitos, recortes, ruídos, interferências, etc...
As imagens projetadas na cena, também faziam parte do espetáculo: informações visuais que emanavam dos corpos recortados dos bailarinos ou ainda, imagens provenientes de coletas prévias, tais como elementos do cotidiano, carros, prédios, árvores, o homem no espaço, etc... Esta coleção de imagens passava pelo crivo, tratamento e distorção de Nam June Paik, o ‘nome próprio’ da videoarte. O ponto de partida (e chegada) de todo o projeto era propiciar a interatividade na cena, exigindo uma nova postura do receptor, menos preconceituosa e ao mesmo tempo atenta, no que vem a ser uma inversão no processo de recepção passiva de imagens ou seqüências de programas gestuais conhecidos.
Assim, em Variation V, o corpo que sempre tomou parte do espetáculo, torna-se o espetáculo em si, porém um espetáculo no qual a dialética entre os padrões de conduta, estética e valores humanos e as estruturas nas quais se apóia entram em crise mediante a desreferencialização e a desterritorialização deste corpo híbrido, cujo trânsito entre o movimento e o som e vice-versa abre fronteiras incontáveis...
A obra desmonta os mecanismos ritualizados, narrativos e previsíveis, enriquecendo-os, com o acaso, tornando-os infinitamente mais dinâmicos e participativos pelo processo da interatividade.
O que possibilita a existência de uma obra como Variation V, em plena década de 1960, é a abertura e o diálogo manifestado pelo coreógrafo e por seus colaboradores, “uma lógica de pensamento artístico situada no limite da articulação entre arte, ciência e tecnologia, colocando a dança em uma organização muito diferente da que, até então, havia sido criada no Ocidente” (SANTANA, 2002, p. 96).
A complexidade estabelecida nesta nova forma de propor e organizar a dança, estava totalmente correlacionada com a nova visão de mundo e com o que acabaria surgindo como arte na era digital.


REFERÊNCIAS:
SANTANA, Ivani. Corpo aberto: Cunningham, dança e novas tecnologias. São Paulo: Educ, 2002.
WOSNIAK, Cristiane. Dança, tecnologia e comunicação. Curitiba: UTP, 2006.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

MERCE CUNNINGHAM: SOBRE RÓTULOS E IDÉIAS

Por Cristiane Wosniak
Mestra em Comunicação e Linguagens (linha: Cibermídia e Meios Digitais) pela UTP. Bailarina e coreógrafa profissional. Pesquisadora e professora de História da Dança. Publicou o livro Dança, tecnologia e comunicação (2007).

There are no labels yet but there are ideas! (trad: não existem mais rótulos, mas sim idéias!)
Esta é uma das afirmações de Merce Cunningham em seu texto The Impermanent Art, escrito em 1952, ao se referir à independência entre as estruturas e a ordem hierárquica na concepção artística: “nos últimos anos, houve uma mudança de ênfase na prática das artes da pintura, música e dança. Não existem mais rótulos, mas sim idéias. Essas idéias parecem estar basicamente relacionadas a alguma coisa que é exatamente o que ela é em seu tempo e lugar, não estando real ou simbolicamente relacionadas a outras coisas. Uma coisa é exatamente essa coisa. É bom que a cada coisa seja concedido esse reconhecimento e essa afeição, e, naturalmente, o mundo sendo como é – ou da forma como nós estamos começando a entende-lo agora – sabemos que cada coisa é também todas as outras coisas, real ou potencialmente. Portanto, parece que não precisamos nos preocupar em fazer com que relacionamentos, continuidade, ordens e estruturas aconteçam – eles não podem ser evitados. Eles são a natureza das coisas, representam nós mesmos, nossos materiais e nosso meio” (VAUGHAN, 1997, p. 86).
Certamente, a dança proposta por Cunningham, por comungar com a natureza e com o meio em que se insere, dialoga, com variados graus de autonomia, com a estrutura sonora, com o figurino, o cenário e a iluminação, criados de maneira independente. Muitas vezes, somente no dia da estréia estas linguagens passam, de fato, a coexistir no meio ambiente, possibilitando a preservação da identidade de cada área: “cada uma convive com a outra por sua particularização no todo, conquistada por ser um ponto discreto no macrossistema” (SANTANA, 2002, p. 69).
Cunningham faz de sua dança o reflexo de um mundo organizado sob a ótica do acaso, do indeterminismo e da teoria da relatividade, proposta por Einstein.
O aspecto mais importante dessa nova forma de dança que se desfaz dos rótulos pré-concebidos e propõe o jogo das idéias em movimento, é que todas as questões sobre espaço, tempo, autonomia entre as partes, descentralização espacial, ou seja, toda a lógica de pensamento de Cunningham, que admite o acaso, a complexidade, a não-linearidade, as leis da natureza, do cotidiano e da vida, tudo parte do e está inserido no corpo que dança.
Tanto o corpo quanto o meio no qual ele se movimenta e dança, ganham características novas, se fundem, dialogam, se complementam e se re-elaboram dinamicamente.
Quanto aos prováveis e abertos processos de interpretação da obra, por parte dos espectadores, Cunningham acredita que cada um fará suas próprias relações e que nenhuma dessas interpretações ou leituras poderá estar equivocada. Por que?
Como criador que considera a dança um processo estabelecido pelos limites do próprio corpo, diz que a dança é, que não significa, e é justamente isto que liberta o espectador da interpretação. Espectador e obra estão dentro de um mesmo processo: o observador, estando inserido no processo da apresentação (aqui e agora), ao contemplar e interagir com a obra, ele estará também, e principalmente, se identificando. E isto é tudo o que importa...

REFERÊNCIAS:
SANTANA, Ivani. Corpo aberto: Cunningham, dança e novas tecnologias. São Paulo: Educ, 2002.
VAUGHAN, David. Merce Cunningham: fifty years. New York: Aperture, 1997
WOSNIAK, Cristiane. Dança, tecnologia e comunicação. Curitiba: UTP, 2006.